20
mai
13

Como me tornei vegetariano

Me tornar vegetariano, não foi algo que aconteceu por impulso, influenciado por modismos ou filosofias baratas. Muito menos foi algo que exigiu de mim um enorme esforço de sacrifício quase sobrenatural para viver de “comer mato”. Nesse post eu irei explorar alguns aspectos dessa minha decisão e tentar fornecer algumas informações úteis para quem está com vontade de tentar, mas ainda está cheio de dúvidas e pouca coragem.

“Vegetarianos só comem mato!

http://www.flickr.com/photos/vista-se/

Mato… clique na imagem para ver outros pratos feitos de “mato”.

Eu, como qualquer pessoa, sempre ouvi falar sobre vegetarianismo, e também como muitos me senti intrigado por essa proposta tão maluca… não comer carne?! Como assim? Eu não conseguia imaginar como era de fato ser vegetariano… é óbvio que vegetarianos não comem “mato”, mas também… o que comem? E os nutrientes? E o pior… Eu só fui perceber o quanto eu realmente não sabia sobre o assunto quando já havia decidido me tornar vegetariano!

Certo dia eu estava pesquisando na internet sobre vegetarianismo… e me deparei com tantas coisas absurdas (que não vemos na TV), com tantas contradições nos nossos hábitos e pensamentos, com tanta destruição, violência gratuita … que resolvi sem muita burocracia “radicalizar”… não vou mais comer carne!

OK…

E aí?

Nos próximos três dias eu me senti tão confuso e perdido que cheguei a ter pesadelos! Eu que estava acostumado com os mesmos pratos há quase duas décadas… a minha velha “vidinha”, as rotinas alimentares de sempre… o que iria comer agora? E iria continuar fazendo isso para sempre? E se eu parar? E se não parar? Para que? O que eu ganho com isso?!! Argh!!!

Interessantemente achei esse pequeno relato de um jornalista que passou por uma experiência semelhante a minha, relata as mesmas perturbações mentais, questionamentos, etc. Dê uma conferida.

My_Mental_State_by_Kunameko

Durante esses 3 primeiros dias minha alimentação foi a mais maluca possível. Eu ainda estava comendo leite e seus derivados e ovos. Mas meus pratos tinham de tudo, nada combinava e tudo tinha gosto de acelga! Argh!

Depois de passar por essa tempestade, minha mente já estava mais centrada, e comecei a entender algumas coisas com mais clareza. Primeiramente percebi que a lógica do vegetarianismo não é uma doutrina cega sobre o que NÃO se deve comer… mas sim fundamentos e princípios éticos que orientam nosso comportamento para coisas que vão ainda mais além do que colocamos na boca.

O que fiz então foi justamente desenvolver essa consciência. Estudar os fundamentos éticos do vegetarianismo e ver se de fato essa dieta tinha algum sentido e se eu deveria continuar nela.

Um dos materiais mais importantes para mim foi o documentário a Carne é Fraca.

Esse documentário produzido pelo instituto Nina Rosa é bastante popular e muitas pessoas já assistiram. Mas se você ainda não viu, pode vê-lo gratuitamente pela internet. Nessa etapa de pesquisas pude ainda assistir vários outros vídeos, nesse link você encontra alguns dos melhores documentários sobre vegetarianismo em diversas abordagens diferentes.

Depois de assistir e ler, o que ficou como fundamental para mim? Bem, como muita gente já sabe (e alguns trailers já mostraram) há uma enorme preocupação ambiental, já que a criação de animais tem causado a destruição de florestas, degradação de rios, etc etc etc. Há também a preocupação com a Saúde. Quase todos os dias saem novos estudos sobre esse assunto… e na verdade praticamente todo mundo sabe que carne faz mal… mas o que mais me chamou a atenção foi a violência gratuita que envolve todo processo de criação de animais…

O vídeo é bastante ilustrativo… mas o mais me assusta é que nós aprendemos de alguma forma que a violência contra animais é legítima, e muitas vezes é motivo de orgulho.

É claro que o consumo de carne e todo uso de produtos derivados de animais é algo que faz parte de nossa cultura, nossos hábitos e valores. As roupas de couro tem mais valor, simplesmente por serem de couro. Casacos e roupas feitas de pele são mais chiques e elegantes. Não colocar carne no prato é sinal de pobreza, e ter muita carne é sinal de fartura. Carne é que dá força e gosto na comida. E assim por diante…

Mas só porque estamos acostumados com algo, só porque socialmente aquilo é legítimo… aquilo está eticamente certo? Pense um pouco sobre a escravidão… você já leu a defesa dos escravistas daquele tempo? Pesquise, você ficará surpreso com as semelhanças.

Os dispositivos sociais de coerção são tão complexos e diversos que as vezes impresisonam. Quantas vezes não fui chamado de “viado” ou minha sexualidade foi questionada pelo simples fato de ser vegetariano, por não concordar com a violência contra animais… incrivelmente isso já foi inclusive objeto de estudo!

 

politica_carne

A violência está tão intranhada na lógica do pensando “onívoro” que o simples ato de falar sobre vegetarianismo provoca em algumas  pessoas uma reação violenta. Basta pesquisar na internet e ler os comentários, ou quem sabe a reação das pessoas a esse post que escrevi aqui?

Falar sobre vegetarianismo nos incomoda porque toca nas nossas crenças, na nossa relação com a vida, com a ética, com nossos princípios…

 

Aqueles mais sensatos, que não partem para a violência verbal (ou física) entram num ciclo  de negação. Como uma espécie de reação automática ao questionamento e a dúvida. Sem qualquer esforço para pensar, ideias surgem em sua mente para explicar, tentar legitimar. É espontâneo… a maior parte dessas respostas já estava no seu inconsciente, você mesmo, se não é vegetariano, já deve ter tido algumas belas ideias que estão se repetindo na sua mente até agora. Vou resumir algumas dessas ideias mais comuns, já deixando alguma resposta:

1. Rá! Esse cara não vai me convencer a ser vegetariano!
(frase geralmente dita por pessoas de baixa auto-estima que acreditam que ouvir outras pessoas e mudar sua forma de pensar é um sinal de fraqueza)
Resposta: Afinal, é claro que você seria um completo babaca se caisse nessa de vegetarianismo… você é esperto! Só pessoas burras (como Charles Darwin, Leonardo da Vinci, Mahatma Gandhi, Albert Einstein) caem nessa.

Esse cara é trouxa, você é inteligente!

2. Vegetariano só come mato!
É…

6803423447_c51cce57cc_z3. Se a gente parar de comer animais eles vão se reproduzir e super povoar o planeta.
… simplesmente a explicação mais imbecil já dita.

4. E as plantas? Elas não são seres vivos???
Muitas pessoas acham que o “certo” seria não comer nada vivo… eu nunca entendi porque o foco no “vivo”, já que o foco é na ÉTICA. Por isso a questão do vegetarianismo é tão humana e subjetiva, falando sobre o que pensamos e sentimos. O que pensamos sobre comer um porco é a mesma coisa que comer uma laranja?

5. De que adianta ser vegetariano? Se eu não comer carne alguém vai!
Alguém vai roubar, matar, estuprar, etc. O que sua ética te diz? Vegetarianismo é uma decisão ética, se você não sabe agir pela sua própria consciência, então não tente.

6. Faltam proteínas (ou nutrientes) na alimentação vegetariana!
Eu sempre quis saber que proteína é essa! Existem diversos mitos sobre a alimentação sem carne. Vamos explorar isso futuramente.

7. Só rico pode ser vegetariano…
Isso me lembra a piada do tomate… :P mas falando sério, geralmente não. Mas existem várias opções de restaurantes, lanches e alimentos industrializados. Que como qualquer outro produto  podem ser caros ou baratos.

8. (Variações de negações genéricas) Isso é coisa pra “ripi”/ Isso é coisa é mulher/ Isso é coisa pra quem tem tempo livre

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9. Eu não tenho forças para ser vegetariano
Leia, estude, procure se informar, converse com pessoas vegetarianas. Chegue as suas próprias conclusões, ninguém obrigará você a ser vegetariano, mas se você se importa com essa questão, invista algum tempo. A dificuldade realmente existe, mas é beeem menor do que você hoje imagina.

10. Não vou deixar de aproveitar a vida por isso.
Essa é a questão mais séria, e na minha experiência vejo que a questão mais importante para a própria pessoa que decide ser vegetariana. Vou falar sobre isso, dando continuidade a minha história, num próximo post.





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